Testemunhas

A noite estava quente, foi a luz da fogueira que atraiu Tourin. O garoto se surpreendeu com o grupo que encontrou, todos armados, com jeito perigoso, com o humor leve no meio da estrada em campo aberto. A região estava cheia de theranos, gente de fora, escravagistas, bandidos com uma bandeira e eles tinham uma fogueira.

Tourin ainda não sabia, naquela época, o que viria a representar. Ele acreditava ser apenas um garoto pobre, órfão, de uma minúscula vila nos confins de Barsaive, no território do que outrora fora chamada Landis. Um garoto de treze anos corpulento demais, esperto demais e com o rosto marcado demais para ter só treze anos. Tourin tinha o carinho de todos os Humanos de Trigoloco e do velho anão Alarr. Uma imaginação fértil, o interesse que todo jovem tem por Adeptos e magia e uma dura responsabilidade. Responsabilidade que ele estava adiando enquanto observava aquele grupo.

Um Elfo da região, um pouco do norte, um T’skrang bem-humorado, mas nervoso, um Ork de Cara Fahd, uma Obsidiman que parecia absorta em preparativos para algo e um Humano de Landis, nervoso, preocupado, leal. Tourin estava intrigado pelo Humano, mas era a Obsidiman que estava se tornando o centro das atenções e Tourin não podia se permitir ignorá-la. Os outros a chamavam de Suffer e ela estava cantando algo baixinho enquanto expunha uma faca longa que parecia minúscula em sua mão. A adaga parecia importante, perigosa, irritada. Era uma arma feita de ônix com a empunhadura trabalhada em detalhes minúsculos, com a lâmina afiada e mágica. A mágica não era evidente, principalmente quando Suffer apenas a encostou em sua mão recoberta de uma pele feita de pedra e derramou sangue imediatamente.

Magia! Tourin tinha visto magia poucas vezes, mas aquela era impressionante. As grossas gotas de sangue vermelho brilhavam refletindo a luz da fogueira e pingavam lenta, mas continuamente, fluindo, para CIMA. Demorou um pouco para Tourin notar que as gotas estavam formando uma espécie de poça suspensa no ar acima da cabeça da Obsidiman. Demorou um pouco mais para ele perceber que a poça formava a silhueta de um morcego. Em menos de um minuto o sague parou de fluir. Quando a última gota de sangue chegou à poça, o morcego composto do fluído vital de Suffer tomou vida, batendo asas e voando para o norte.

Tourin pensou em deixar o lugar quando o ritual se encerrou, mas percebeu que Suffer estava sentada de olhos fechados e que todos os outros ficavam em pé à volta dela, tensos, com a respiração contida. Quando Suffer começou a falar, o jovem se surpreendeu ao perceber que também estava aguardando ansiosamente por suas primeiras palavras.

“Estou vendo a vila. Não há nenhum homem do lado de fora, mas há guardas armados nos telhados e tochas acesas – várias tochas, iluminando bem a noite.” Tourin conseguia imaginar a Obsidiman enxergando através dos olhos do morcego de sangue. Ele imaginava sua cidade natal vista de cima, iluminada pelas luzes que os tais Heróis de Draxos mantinham acesas. Ele imaginava Suffer vendo a cena toda tingida de vermelho.

“A vila tem menos de uma centena de casas e há uma grande praça ao centro, nesta estão montadas várias tendas – umas quinze. No campo a leste da vila, dentro de uma expansão da paliçada, há mais umas vinte tendas, carroças, cavalos, porcos, algumas vacas e muitas galinhas, móveis, prataria e armas.” A praça era onde Kwata costumava celebrar os ritos de purificação toda primavera, invocando Garlen, Thystonius e Mynbruje, para proferir a consagração do lar, para suplicar pela força para protegê-lo e para lembrar a sabedoria a sabedoria necessária para perceber a corrupção.

“Há gente na rua, principalmente gente armada e beligerante,” os Heróis, Tourin pensou com raiva, “e alguns poucos apressados, carregando mantimentos e lenha.” Gente de Trigoloco, minha gente. Forçados a servir os invasores, prepararem comida, repararem armas, armaduras, carroças, roupas e tendas. “Devem ser uns oitenta soldados,” setenta e sete, “e mais alguns seguidores. No campo, uma T’skrang acorrentado trabalha à beira de uma forja.” Pobre Tlacat, uma discípula de V’shrantar tratada assim. “Há panelões de sopa sendo preparados no campo e três gaiolas como cubos de um metro e meio. Uma anã e um humano estão presos nas gaiolas.” Ao ouvir isso, Tourin realmente se irrita. Norr, após aceitar todo tipo de refugiado na vila – inclusive Tark, ao seu lado – se recusara a abrir os portões para uma centena de homens armados e por isso o hediondo Nuurk lançara a acusação de conluio com os horrores, por recusar a entrada de um grupo de Caça-Horror dentro de Trigoloco. Tourin notou o elfo atento, olhando à volta. O garoto prendeu a respiração e tentou ficar tão imóvel quanto possível. A voz de Suffer voltou a atrair a atenção do Elfo e Tourin relaxou um pouco.

“Há um círculo queimado no chão à frente das gaiolas e sinais de que algum ritual se tem praticado ali. Um Humano vestindo trajes de feiticeiro não está muito longe do círculo, mas não creio que seja ele quem conduz os rituais. Ele tem espirais, triângulos e círculos bordados em seus trajes.” Narox, o Arquimago. “Não vejo Nuurk, mas o anão que nos interpelou, Graum, está conversando com outros soldados animadamente. Vou fazer um segundo sobrevôo, mais baixo.

“São doze homens sobre os telhados. Todos com arcos curtos e alguns com bestas – estas parecem encantadas. Um dos homens dos telhados é um Troll e outro é uma anã de olhos vermelhos.” Afaste-se daí, Suffer! Pensa Tourin agitado. São Marsun e Zi! Marsun é uma porta, mas Zi é uma Vigia, não há como ela não te perceber! “A anã está apontando para meu servidor. Vários homens estão olhando para o céu e apontando armas sem realmente ver meu morcego. Um Humano no chão está apontando com um arco curto exatamente na direção certa, parece estar traçando uma marca no ar com a ponta da flecha. Acho que é um Arqueiro.” Não, pensa Tourin, esse é Jarak. Um Guia Cathan, ele só gosta de arcos. Mas se ele a viu, acabou. Porque ele deve tê-la indicado para Narox e agora- “Nada! Um brilho de luz e mais nada. Alguma coisa interrompeu o feitiço e não foi uma arma.”

Tourin sentiu uma dor no peito. Aquele relato o lembrara duramente do que deixara para trás. Ele tinha que continuar. Não podia parar ali. Ele tinha que chegar até Ezgov para pedir socorro ao Duque. Ele já dispusera de tempo demais procurando o mítico protetor de Trigoloco, o Inquisidor, o velho Aisan. Não seriam aqueles poucos Adeptos – uma Nethermante, um Criador de Armas, um Elementalista, um Mestre Espadachim e um Adepto da Fúria de Batalha se Tourin lembrava bem das lições do velho Alarr – quem poderiam ajudá-lo.

Tourin ainda estava decidindo se os avisava dos perigos da região ou se os deixava sem arriscar-se a revelar sua presença quando ouviu o silêncio posterior ao ritual ser quebrado pela voz melodiosa do Elfo carregada de emoção. “Gente acorrentada! Gente engaiolada! A gente tem que ir lá. Não tem como virar as costas mais uma vez! Pode ser agora, pode ser depois de encontrar o Nethermante, pode ser depois de juntar uma tropa em Ezgov, mas a gente tem que voltar lá!” Ele falava com paixão enquanto andava pelo acampamento. Apesar de estar de costas para todos seus companheiros, Tourin tinha a impressão de que o Elfo se dirigia ao Adepto da Fúria. “Mas antes, temos que resolver um outro problema,” de repente a voz estava tão fria quanto uma nascente no inverno. “O que vamos fazer com esse espião aqui!”

Tourin soltou um grito quando Elfo pôs a mão sobre seu ombro. Ele tinha se aproximado sem que Tourin acreditasse que pudesse ser visto. Ele o distraíra com suas palavras e chegara perto o suficiente para tocá-lo. Agora, Tourin sentia a força insuspeita das mãos pesadas daquele Elfo em seu ombro e se debatia para livrar-se. Em um pulo o Humano cruzou doze metros, sem esforço, singrando o ar com leveza, metros acima das cabeças dos Nomeadores, e posicionou-se no caminho de fuga de Tourin. Ele estava cercado!

E agora? O que eu conto para eles? Tourin se perguntou, assustado.

Por Jonaro – Cronista Empata do Condado de Ezgov, 1658

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