Carta de Drae

Meu pai e senhor,

É com pesar que vos informo da morte de vosso filho, Koehlan. Ele morreu da forma que sempre viveu, se pondo em perigo e tentando proteger os outros. Não admiro a forma como outras raças respeitam e veneram a forma como morrer, pois sempre acreditei que a forma como vivemos é que nos vale a memória. E é por isso que vos rogo a publicar esta carta em honra de meu irmão.

Sois ciente que viemos a Ezgov a pedido de meu tutor, Mestre-Ferreiro Razshiel. Vim para encontrar um discípulo de Enealia, finada adepta e amiga de Razshiel. Ele anseia por conversar e saber mais a respeito de sua amiga, já que se separaram à época do Flagelo.

Já na viagem pude perceber o altruísmo de Koehlan. Ele sempre ia na frente, deixando marcas no caminho para que eu pudesse me guiar. Por vezes, cheguei a passar dia inteiro sem vê-lo. Mas sua presença sempre podia ser sentida. Num momento da viagem percebi que ele se ferira. Sempre notei também que suas flechas rareavam ao longo da jornada. Ainda assim, nada me ocorreu.

Em Ezgov, pude conhecer e conviver com Lelis, discípulo de Enealia. Koehlan preferia a solidão da floresta ao barulho da cidade. Então nos encontrávamos apenas no final do dia. Ele sempre foi muito reservado e de poucas palavras, então não conversávamos muito. Mas ele sabia da admiração e respeito que nutria por ele.

Não muito tempo depois, aceitamos auxiliar dois adeptos adivinhos numa contenda. Eles procuravam um artefato que ficava dentro de um Kaer próximo. Então contrataram um grupo de adeptos cada e solicitaram que trouxessem esse artefato. O grupo que encontrasse o artefato primeiro daria a vitória ao adivinho que o contratou. Koehlan e eu nos reunimos a Hakar, um battlerager, e Suffer, uma Nethermancer.

Hackar é um guerreiro humano bastante passional. Tanto dentro quanto fora de combate. É muito honrado e bastante destemido. Já Suffer delineia melhor sua raça. Como uma obsidiwoman, nunca sabemos ao certo se ela se importa com o que acontece ao redor dela. Ainda assim é uma companheira capaz e habilidosa.

O outro grupo possuía um beastmaster entre eles. Isto lhes deu uma vantagem sobre nós, pois o outro grupo conseguiu montarias. Mas Koehlan foi essencial nesta hora, compensando tanto nossa falta de montaria nos guiando pelos ermos de Ezgov de forma capaz e exemplar. Por seguidas vezes, seu filho seguia adiante do grupo, nos precavendo sobre atalhos e desvios a serem percorridos no caminho.

No Kaer, Koehlan soube nos guiar pelos labirintos de túneis iniciais, inclusive nos protegendo e avisando sobre shadowmants que infestavam o kaer abandonado. Mesmo assim, o outro grupo de adeptos conseguiu chegar primeiro ao kaer. Eles obstruíram nossa passagem ao centro do kaer derrubando uma ponte. Fomos obrigados a descer na depressão formada pelo rio que ali corria antes de ser represado pelos habitantes do kaer.

Lá vivia um monstro formado por lodo e lama. Ele quase conseguiu acabar com a vida de Hakar, não fosse pelas flechas certeiras de Koehlan. Depois disso conseguimos encontrar o artefato que era guardado por um golem de sangue. Hakar e Koehlan conseguiram derrotar a criatura, mas os conhecimentos de Suffer ajudaram muito.

Voltando e Ezgov, fomos recebidos pelo adivinho que nos contratou já nos portões da cidade. Infelizmente ficamos sabendo que ele assassinou seu colega adivinho e partiu da cidade levando o artefato. Koehlan suspeitava dele logo que chegamos, mas não dei ouvidos.

Porem o ducado passava por outros problemas. Várias patrulhas estavam desaparecendo. Os poucos que voltavam com vida reportavam da ameaça therana na região. Thera agia livremente sem que muita coisa pudesse ser feita.

Foi quando fomos contatados por um dos membros da guarda pessoal do Duque. Ele ouvira a respeito de jornada ao antigo kaer e decidiu pedir nossa ajuda. Ele havia perdido sua mão em combate há algum tempo. Porem ele sentiu que algo havia se ligado ao seu pattern através da sua mão perdida. Então nos contratou para que soubéssemos o paradeiro de seu membro perdido e, se possível, recupera-lo.

Aceitamos o serviço e partimos para o sul, já nas regiões theranas. Koehlan foi nos guiando, como fazia melhor. E seguimos sem maiores ocorrências. No terceiro dia de viagem nos deparamos com uma unidade therana. Conseguimos emergir vitoriosos apesar de um dos comandantes da unidade ter fugido. Infelizmente ficamos muito feridos. Koehlan recebeu os maiores danos, dada sua natureza. Mas forçava o grupo a seguir adiante sem se importar com o seu bem estar.

Quando derrotamos um dos comandantes, o poder que ele exercia sobre seus escravos caiu e conseguimos libertar um colega adepto. Baenar, um elementalista anão, já estava há dois anos cativo dos theranos. Apesar dos ferimentos, estávamos com o coração bem mais leve sabendo que havíamos feito um ato de bravura e bondade. Libertar Baenar foi a única coisa boa que conseguimos nessa viagem, entretanto.

Nos deparamos com o que parecia ser o final de nossa jornada. Era uma cabana numa clareira aberta por chamas. Ficava num bosque na região de Canaer, perto dos pântanos. Os animais evitavam esse local e Suffer pode ver o toque de um Horror pairava neste local. Seguimos em direção à cabana, mas fomos surpreendidos por uma nuvem de fuligem e brasas que desceu quando nos aproximamos da cabana. Nelas haviam espíritos torturados que nos atacavam. Koehlan, pela última vez, foi à frente procurando acabar com a fonte desse mal.

Ele enfrentou dois desses espíritos para que o resto do grupo pudesse fugir. Quando conseguimos nos reagrupar, Koehlan não havia retornado. Apenas Hakar conseguiu me convencer a não tornar o sacrifício de Koehlan em vão. Feridos nós retornamos a Ezgov com a missão incompleta.

Lá ficamos sabendo que o Duque decretara uma recompensa a quem conseguisse resolver o problema da invasão iminente. Imbuído de rancor e ódio, juramos vingança ao espírito de meu irmão. Mas eu não queria que ele fosse lembrado pela sua morte, nem que sua lembrança fosse a de perda. Ele era um espírito livre e honramos sua vida nos nomeando Libertadores.

Espero viver honrando esse compromisso e a memória de meu irmão. Assim como espero que essa carta possa inspirar outras pessoas ao altruísmo que Koehlan me ensinou.

Seu filho,

Draezagus Haranavei

Carta de Drae

Shattered Legacies infax01