A Mão e o Horror

O casebre fica no encontro de um pequeno bosque com um pântano. Em volta da casa está tudo queimado, como a obra de um grande desmatamento com fogo – das árvores queimadas sobrou só o toco – mas o casebre está intacto. Nuvens negras pairam sobre o casebre. O cheiro de enxofre recobre o ar. De repente a parede da casa se quebra e um urro de dor se faz ouvir. Alguém é arremessado contra a parede e deixa um buraco do tamanho de um corpo. Eu sou Hackar, e aquele homem ali sendo jogado contra a parede sou eu. Aquela criatura construída por um horror foi quem me chamou de lagartixa. Bem, vou começar a história do princípio.

A missão dos adivinhos tinha sido um fracasso, se não por termos conseguido trazer o artefato efetivamente, talvez por termos escolhido o adivinho errado. Erro meu. Na minha gana por conseguir uma audiência com o Lorde preferi logo aquele mais próximo à nobreza e, talvez, o mais amaldiçoado por ela. A ganância tomou conta de Maximilianus e o fez matar Décium. Águas passadas, não há nada mais a acrescentar. Acontece que agora estou nessa taverna pública, dormindo do lado do povo – um povo simples, provavelmente honesto, mas, nessa situação, fico muito exposto. Ao menos Dri, Koelan e Suffer não se esqueceram de mim. Foi numa noite nessa estalagem que me veio a proposta.

“Fui contactada por um nobre da guarda, Hackar,” Suffer me contou. “Ele precisa que eu vá atrás da mão dele que está perdida…”

“Como assim Suffer?” Perguntei.

E ela me respondeu apenas: “Coisa de necromante. Mas você pode conseguir sua audiência caso consigamos trazer a mão dele de volta.” Com isso, ela tinha um ponto para me convencer. Além disso, ainda havia um pagamento por trás. Isso era muito bom, as minhas reservas estavam acabando.

Saímos com Koelan nos guiando com maestria. Suffer parecia sentir a tal mão, o que foi muito bom para termos noção da direção. No início, a viagem parecia ser tranqüila, sem problemas com animais e nem Nomeadores, mas não ficou assim muito tempo não. Em uma noite, Koelan nos acordou, dizendo ter certeza de ter visto um homem nos observando do alto de uma colina. Pior: pareceu que no Espaço Astral havia uma espécie de olho focado em nós. Saímos rapidamente dali, mas não teve como não ficar com um frio da espinha. No dia seguinte, vimos algo que nos pareceu improvável: um navio Therano caindo aqui em Landis. Eu sei que estávamos muito perto de Sky Point, mas mesmo assim não pareceu certo. Eles realmente estavam tramando algo.

No mesmo dia, mais tarde, cruzamos pela primeira vez aço com os Theranos. Eram mais de vinte, com um Elfo e um Ork comandando, cada um, seu próprio grupo de escravos. O Elfo os dirigia com a graça de um Warlord, enquanto o Ork despertava a besta dentro dos escravos. Este último era, claramente, um Blood Mage. O combate foi brutal, com o final favorável a nós. O resultado foi alguns escravos mortos, o Elfo caído e o Ork fugindo do campo de combate. Durante a batalha, Koelan demonstrou uma destreza com seu arco que nunca vi em um Scout, enquanto Dri com seu martelo de combate abriu caminho entre os escravos – o martelo era tal, que creio que eu nem mesmo consiga aquela arma, o que prova que os Elfos estão longe de serem as criaturas frágeis que muitos assumem. Suffer com seus ossos e magias sempre me deixa um pouco assustado, mas, como sempre, foi muito eficiente.

Com a batalha vencida, pegamos os espólios de guerra e deixamos o local, quando Koelan achou uma caverna para nos abrigar durante o resto do dia e por aquela noite (estávamos todos com feridas abertas e bem cansados do combate). No dia seguinte enquanto estávamos removendo a armadura interna do do corpo do Elfo Therano (a armadura de cristal que hoje protege meu corpo) fomos surpreendidos por um dos escravos. Ele nos procurou na caverna, parecia ter nos seguido depois que derrotamos seu mestre. Ele parecia ter se livrado das correntes theranas que o impediam de usar sua magia. Seu nome era Baelan e ele era um Elementalista. Quando ele recuperou finalmente sua força – seu karma –, a noite pareceu menos fria na caverna e a comida mais saborosa. Parecia que os elementos realmente eram mais gentis com ele por perto.

Partimos após mais um dia, continuando a seguir a direção da mão. Isto foi quando encontramos a clareira. Na beira de um pântano havia um casebre e a sua volta tudo parecia estar queimado. Achávamos que a mão definitivamente estava dentro do casebre e resolvermos ir até a casa. Quando entramos na clareira as nuvens que magicamente estavam sobre nós rapidamente desceram e não conseguimos mais enxergar uns aos outros lá dentro. Começou então um combate com Espíritos de fogo. Koelan, mais rápido, continuou em frente até o destino que tínhamos definido, até o casebre, enquanto nós outros ficamos dispersos, perdidos na escuridão. As criaturas começaram atacando Baenar e Suffer que tinham ficado mais para trás e, com isto, Dri e eu corremos para auxiliá-los. Suffer caiu antes que pudéssemos ajudá-la, mas Baenar a auxiliou, mandou que corresse e sumiu na fumaça densa. Certos que seria impossível atingir o casebre daquele jeito, começamos a traçar uma estratégia para recuarmos quando ouvimos ao longe um grito de Koelan – um grito alto mas abafado pelo barulho que os espíritos faziam a nossa volta. Quando saímos da clareira e as nuvens se dissiparam o corpo de Koelan estava caído na frente do casebre e um jovem, que parecia ser um mago no corpo de um menino, o estava puxando para dentro. Consideramos que Koelan estava morto e começávamos o pensar em voltar para casa. Dri estava arrasado e Suffer estava impassível. Não sei como os Nethermancers reagem à morte, mas eu fiquei assustado. Foi nesse momento que alguém falou: “Ainda temos uma poção da Última Chance! Temos como salvá-lo.” Nesse momento, vi Dri arregalar os olhos e começar a andar em direção à clareira. Eu tentei acalmá-lo, falei que seria estúpido ele ir até lá e terminar como o irmão. Disse a ele que eu mesmo iria tentar salvá-lo.

Eu sou Hackar, sou aquele homem sendo arremessado contra a parede. Koelan está além de qualquer ajuda, o jovem mago (que já está morto a essa altura) o colocou em uma poça muito grande de sangue com outros pedaços de carne humana efervescentes. Não havia chance para o mesmo. E agora estou enfrentando um construto de horror que parece carregar em suas costas a mão de nosso contratante. Uma criatura grande, de forma humanóide, mas feita de pedaços de corpos de pessoas. Confrontado com tal monstro, decidi, como última alternativa, eu ir para cima com toda minha força. Sabia que um combate franco seria a morte para mim, então, ao me colocar de pé, implorei para que meus ancestrais me dessem força para jogar aquela criatura ao chão, me oferecendo assim uma rota de fuga. Entrei por baixo da guarda criatura com meu escudo – Crystal Plate Vanguard – a levantando e jogando ao chão. Feito isso saltei para o mais longe possível e conseguir escapar do casebre e das nuvens com espíritos. Ainda tivemos tempo de ver o casebre ser totalmente destruído, mas não testemunhamos o destino da criatura que lá estava.

Mais tarde, uma comitiva Therana chegou até à clareira. Acredito eu, que eram o Orc e seus escravos, mas não ficamos lá para presenciar qual a missão deles no local.

Voltamos a Ezgov e ficamos sabendo que a cidade está praticamente sitiada. Ninguém consegue sair sem ser atacado por Theranos. O ducado está reduzido às muralhas do castelo e o Lorde está convocando adeptos de todos os cantos para acharem uma solução para o problema. Assim começa uma nova aventura para nós. Um grupo cheio de diferenças, mas aparentemente com o mesmo ideal de heroísmo e honra que arde em meu coração.

A Mão e o Horror

Shattered Legacies juliocmbaia